domingo, novembro 16, 2008

O NASCIMENTO DO BARROCO EM PORTUGAL (Parte I)

Crítica Concerto São Roque 9 de Novembro de 2008 17h00, in Público 14 de Novembro de 2008 por Cristina Fernandes.
Igreja do Instituto de São Pedro de Alcântara (igreja lotada).

Vocacionado para a música antiga e contemporânea, o Sete Lágrimas Consort constitui um dos mais interessantes projectos surgidos em Portugal, nos últimos tempos, conforme se pode comprovar através de dois CD já editados (Lachrimae #1 e Kleine Musik), aos quais se seguirá, em breve, Diaspora.pt. Dirigidos pelos tenores Filipe Faria e Sérgio Peixoto, o grupo apresentou no ciclo Música em São Roque um criterioso programa intitulado “Pedra Irregular – O Nascimento do Barroco em Portugal”.

De Diogo Dias de Melgaz, um dos últimos vultos da Escola de Évora, a António Teixeira e Francisco António de Almeida (bolseiros em Roma a expensas de D. João V), passando por Henrique Correia, Carlos Seixas e Scarlatti, foi traçado um percurso com algumas das mais belas obras escritas entre os finais do século XVII e meados do século XVIII.

O repertório sacro apresentado foi concebido para coro (com ou sem solistas) e baixo contínuo, mas o Sete Lágrimas interpretou-o apenas com três cantores, atribuindo algumas das restantes partes a instrumentos (oboé e violino barroco) e contando com um grupo de baixo contínuo generoso (violoncelo, duas tiorbas e cravo).

Algumas obras vocais (de Melgaz, Teixeira e Almeida) foram tocadas apenas em versão instrumental e as restantes foram objecto de combinações vocais e instrumentais variadas, que permitiram acentuar os contrastes da textura musical e obter ambientes tão diversos como o intimismo contemplativo da Lamentação, de Almeida, ou a exuberância italianizante dos Responsórios de Carlos Seixas, do Responsório Si quaeris miracula ou do Motete Justus ut palma florebit, de Almeida.

O colorido que se ganhou desta forma mostrou facetas que outras interpretações deixam na sombra. Mas se o resultado foi revelador, esta atitude é susceptível de algumas reflexões musicológicas. Várias destas peças foram certamente cantadas na Patriarcal de D. João V, que contava com um coro de italianos de alto nível e cultivava um cerimonial monumental, mas também não é impossível que tivessem sido feitas com uma voz por parte noutros locais prática documentada em Portugal nas décadas seguintes).

O uso de um conjunto vocal mais amplo seria talvez mais fidedigno, mas os Sete Lágrimas não se definem como um grupo filiado nas “interpretações historicamente informadas” no sentido convencional, embora tenham formação nessa área. Preferem apostar na experimentação e na recriação do repertório, de resto uma tendência cada vez mais comum também a nível internacional.

Com timbres de cores suaves, as vozes de Filipe Faria e Sérgio Peixoto combinaram-se com elegância e bom gosto e a soprano Mónica Monteiro teve uma prestação de crescente eloquência que culminou nas páginas de Almeida, precisando apenas de aperfeiçoar alguns detalhes nas passagens mais virtuosísticas. A clareza de fraseados do oboé de Andreia Carvalho, num sugestivo diálogo com o violino de Denys Stetsenko, e um grupo de contínuo que nunca incorreu na monotonia completaram um trabalho de conjunto de grande consistência técnica e artística.

4 comentários:

Meow disse...

Diz que o concerto foi bem bom! ;)

Rebola disse...

Ouvi e vi o vídeo e só tens muitos bons motivos, para estar orgulhoso da soprano, parabéns para ti e para a Mónica, que a sua carreira prossiga sempre em crescendo. Partilho do teu orgulho. Há mais luz na nossa terra, brilha uma estrela lírica.

Um abraço
Carlos Rebola

Meow disse...

Obrigada pelo comentário, Carlos.

São Monteiro disse...

Será q tb posso deixar um comentário (visto q sou mãe da soprano) ... rsrsrs
Tenho um imenso orgulho nela, seja ou não soprano.
Bj enorme,
SM